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terça-feira, 5 de novembro de 2013

Observação Postural de Pessoas no Cotidiano



Com a missão de observar as posturas das pessoas em seu cotidiano, não relutei em não procurar nenhum lugar em especial. Mantive meu caminho, também rotineiro, e escolhi um que tem sido muito presente em minha vida de uns anos para cá: O metrô.

Eu poderia escolher a forma como as pessoas entram no vagão do trem, por exemplo, num contraste de aceleração intensa e, depois de obter o objetivo, desaceleração imediata ( o que chega a atrapalhar quem ainda está na intenção de aceleração). Eu poderia também escolher a pressa, o andar, o carregar objetos. Porém, para manter minha mania de visão macro, escolhi os “olhos”.
Percebi várias  posturas muito comuns que acontecem com os olhos. Tem, por exemplo, a postura de “olhos de espera”, na qual ficam praticamente meio abertos, como se a pálpebra superior estivesse pesando. E é bem possível que realmente esteja.  Este tipo de olhar carrega um véu e uma opacidade, uma postura inexpressiva que parece vir junto de um sentimento de conformidade.
É inevitável falar sobre os “olhos que ficam grudados em aparelhos eletrônicos”, que transparecem uma falta de relação e constante fuga da presença real. Também demonstram inexpressão e falta de vitalidade.

Acontecem também “o desvio de olhar” ou “olhar de indiferença”. Obviamente, em uma cidade como São Paulo, é impossível criar relação através dos olhos com todo mundo. É ameaçador e intimidador. Portanto esses  tipos de olhares acontecem com muita frequência, como uma observação ao ambiente ou ao outro sem diretamente olhar. Uma tentativa de respeito, individualidade e privacidade.

E, para confluir, a efetiva “troca de olhares” que, naturalmente, é a que menos acontece. Quando esse tipo de olhar ocorre, ele pede uma continuidade de relação, seja um cumprimento, uma conversa, um flerte ou uma cumplicidade, que podem ser correspondidos ou não.


Obviamente o metrô é um local público onde milhares de pessoas transitam e a relação entre as pessoas com os olhos é muito delicada e íntima. O que chega a ser um pouco inadequado ao local. Porém, de modo geral em outros ambientes, percebe-se que as pessoas também se dessensibilizaram  no aspecto de olhar e serem olhados, fortalecendo a cultura individualista, egocentrista e até autista.

Sobre uma tentativa em mudar de rotina...




No meio do caminho havia um Pé de Pitanga. Havia um pé de Pitanga no meio do caminho...












Com a proposta de mudar alguma rotina em minha vida e observar novidades decorrentes dessa decisão, percebi um fato: Minha rotina é fora da rotina.

Deixa-me explicar:

É claro que tenho uma, pois estudo, trabalho e tenho alguns robbies, porém é muito comum eu sempre propor sair do habitual de alguma forma. Manter-me pontual, seguir o mesmo caminho, comer sempre nos mesmos horários a mesma quantidade e qualidade de alimentos é algo que praticamente não conheço, e, quando preciso, faço com grande esforço para me manter disciplinada. Isso não é orgulho nenhum para mim, a não ser pelo fato de que nem em vícios eu consigo me manter.

Partindo dessa observação, entendi o quão seria difícil decidir qual ação tomar e como iria escrever esse texto. E fui por tópicos:

- Mudar de caminho? Não. Faço isso com certa frequência.

- Conversar com novas pessoas? Também não. Gosto de gente e sou bastante curiosa quanto aos diversos mundos que há dentro de cada um. De alguma forma ou de outra, sempre tenho contato com pessoas de diferentes culturas, níveis intelectuais e sociais.

- Hábitos alimentares? Hum... Não. Como disse, é muito difícil eu ser disciplinada. Para mim já basta mudar naturalmente meu hábito alimentar no período da TPM.

Bem, eu já havia percebido que essas fórmulas de motivação, autoconhecimento, autossuperação ou coisas do tipo, não se encaixavam muito comigo. E quando eu topava fazer, minha vida virava um verdadeiro caos.

O que fazer então?

Decidi aquietar e deixar o assunto cruzar o meu caminho... E não demorou muito para que isso acontecesse.

Mês de outubro, época de... De que mesmo? São poucas as épocas de colheita de frutas que conheço. Mas peraí: Me lembro que no ano passado, neste mesmo mês, esse pé de pitanga, aqui na praça, estava cheio! Opa! E agora ele também está!

É época de Pitanga!!!

Bem, cheio é modo de dizer. Havia algumas vermelhinhas bem lá em cima, mas embaixo não havia quase nenhuma. E, ao contrário da proposta deste exercício, eu criei o hábito de sempre voltar da faculdade, passar por aquela pracinha, no meio da avenida e pegar pitangas.

A princípio foi bem estranho, porque não é uma atitude muito urbana catar pitangas às duas horas da tarde em um dia de semana. Mas superei a estranheza (e a vergonha, claro) e fiz isso todos os dias que pude.

Chegou um dia em que eu, neste percurso e neste novo hábito, me deparei com uma insatisfação (já disse sobre a minha mania em sair da rotina, não é?), e vi que o que eu estava fazendo não tinha sentido algum. A chuva já tinha passado e eu estava em frente ao pé de pitanga sem saber como agir. Mesmo com a motivação quase se esvaindo, resolvi tentar insistir. Mala nos ombros, cadernos e apostilas nas mãos e eu dava voltas em torno do pé tentando achar alguma forma de colher as frutas. As de baixo já tinham ido todas, ainda mais depois da chuva. Subir no pé eu não podia, pois o tronco era fino demais. Foi aí que eu me inconformei. Eu podia pegar essas duas ou três meio amarelinhas ou inventar alguma coisa para pegar aquela vermelhona lá em cima! A verdade: Eu já tinha até me esquecido do sabor da pitanga madura, acostumada a sempre comer as mais próximas.

Botei minha mala e cadernos em cima do banco da praça e saí me enfiando nos galhos com folhas molhadas, que me estilingavam sujando meu casaco claro ainda cheirando a amaciante. As frutas lá em cima estavam tão maduras que só de mexer caiam, mas o chão estava imundo demais para pegá-las. E a saga rumo à pitanga ideal continuava! Até que depois de muito me esticar, entortar e contorcer, consegui.

Que vermelhinha! E era maior que as outras!

Bem, chegou o grande momento: Comê-la!

Foi aí que eu entendi o poema de Machado de Assis, no qual compara as mulheres às frutas de uma árvore. As melhores ficam acima, isoladas, achando que o problema é delas por não serem escolhidas, quando na verdade são melhores que as outras, mais maduras e mais gostosas. Só precisam que sejam colhidas por alguém que as valorizem e que tenha coragem de se esforçar, abdicando da facilidade e do gosto insosso das de baixo. Aquela lá, a que eu peguei, era rara. Que sabor! Valeu a dedicação e todo o mico de ficar suja e descabelada em meio à avenida principal do bairro.

Eu poderia apresentar essa minha nova rotina para outras pessoas. Na verdade cheguei a fazer isso, mas foi diferente. A vivência e o olhar eram meus. O esforço, a vergonha, o medo de errar...

Valeu a pena!