Com a missão de observar as posturas das pessoas em seu
cotidiano, não relutei em não procurar nenhum lugar em especial. Mantive meu
caminho, também rotineiro, e escolhi um que tem sido muito presente em minha
vida de uns anos para cá: O metrô.
Eu poderia escolher a forma como as pessoas entram no vagão
do trem, por exemplo, num contraste de aceleração intensa e, depois de obter o
objetivo, desaceleração imediata ( o que chega a atrapalhar quem ainda está na
intenção de aceleração). Eu poderia também escolher a pressa, o andar, o
carregar objetos. Porém, para manter minha mania de visão macro, escolhi os
“olhos”.
Percebi várias
posturas muito comuns que acontecem com os olhos. Tem, por exemplo, a
postura de “olhos de espera”, na qual ficam praticamente meio abertos, como se
a pálpebra superior estivesse pesando. E é bem possível que realmente
esteja. Este tipo de olhar carrega um
véu e uma opacidade, uma postura inexpressiva que parece vir junto de um
sentimento de conformidade.
É inevitável falar sobre os “olhos que ficam grudados em
aparelhos eletrônicos”, que transparecem uma falta de relação e constante fuga
da presença real. Também demonstram inexpressão e falta de vitalidade.
Acontecem também “o desvio de olhar” ou “olhar de
indiferença”. Obviamente, em uma cidade como São Paulo, é impossível criar
relação através dos olhos com todo mundo. É ameaçador e intimidador. Portanto
esses tipos de olhares acontecem com
muita frequência, como uma observação ao ambiente ou ao outro sem diretamente
olhar. Uma tentativa de respeito, individualidade e privacidade.
E, para confluir, a efetiva “troca de olhares” que,
naturalmente, é a que menos acontece. Quando esse tipo de olhar ocorre, ele
pede uma continuidade de relação, seja um cumprimento, uma conversa, um flerte
ou uma cumplicidade, que podem ser correspondidos ou não.
Obviamente o metrô é um local público onde milhares de
pessoas transitam e a relação entre as pessoas com os olhos é muito delicada e
íntima. O que chega a ser um pouco inadequado ao local. Porém, de modo geral em
outros ambientes, percebe-se que as pessoas também se dessensibilizaram no aspecto de olhar e serem olhados,
fortalecendo a cultura individualista, egocentrista e até autista.