No
meio do caminho havia um Pé de Pitanga. Havia um pé de Pitanga no meio do
caminho...
Com a proposta de mudar
alguma rotina em minha vida e observar novidades decorrentes dessa decisão,
percebi um fato: Minha rotina é fora da rotina.
Deixa-me explicar:
É claro que tenho uma, pois estudo, trabalho e tenho alguns robbies, porém é muito comum eu
sempre propor sair do habitual de alguma forma. Manter-me pontual, seguir o mesmo
caminho, comer sempre nos mesmos horários a mesma quantidade e qualidade de
alimentos é algo que praticamente não conheço, e, quando preciso, faço com
grande esforço para me manter disciplinada. Isso não é orgulho nenhum para mim,
a não ser pelo fato de que nem em vícios eu consigo me manter.
Partindo dessa observação,
entendi o quão seria difícil decidir qual ação tomar e como iria escrever esse
texto. E fui por tópicos:
- Mudar de caminho? Não.
Faço isso com certa frequência.
- Conversar com novas
pessoas? Também não. Gosto de gente e sou bastante curiosa quanto aos diversos
mundos que há dentro de cada um. De alguma forma ou de outra, sempre tenho
contato com pessoas de diferentes culturas, níveis intelectuais e sociais.
- Hábitos alimentares? Hum...
Não. Como disse, é muito difícil eu ser disciplinada. Para mim já basta mudar
naturalmente meu hábito alimentar no período da TPM.
Bem, eu já havia percebido
que essas fórmulas de motivação, autoconhecimento, autossuperação ou coisas do
tipo, não se encaixavam muito comigo. E quando eu topava fazer, minha vida virava
um verdadeiro caos.
O que fazer então?
Decidi aquietar e deixar o
assunto cruzar o meu caminho... E não demorou muito para que isso acontecesse.
Mês de outubro, época de...
De que mesmo? São poucas as épocas de colheita de frutas que conheço. Mas
peraí: Me lembro que no ano passado, neste mesmo mês, esse pé de pitanga, aqui
na praça, estava cheio! Opa! E agora ele também está!
É época de Pitanga!!!
Bem, cheio é modo de dizer. Havia
algumas vermelhinhas bem lá em cima, mas embaixo não havia quase nenhuma. E, ao
contrário da proposta deste exercício, eu criei o hábito de sempre voltar da
faculdade, passar por aquela pracinha, no meio da avenida e pegar pitangas.
A princípio foi bem
estranho, porque não é uma atitude muito urbana catar pitangas às duas horas da
tarde em um dia de semana. Mas superei a estranheza (e a vergonha, claro) e fiz
isso todos os dias que pude.
Chegou um dia em que eu,
neste percurso e neste novo hábito, me deparei com uma insatisfação (já disse
sobre a minha mania em sair da rotina, não é?), e vi que o que eu estava
fazendo não tinha sentido algum. A chuva já tinha passado e eu estava em frente
ao pé de pitanga sem saber como agir. Mesmo com a motivação quase se esvaindo,
resolvi tentar insistir. Mala nos ombros, cadernos e apostilas nas mãos e eu
dava voltas em torno do pé tentando achar alguma forma de colher as frutas. As
de baixo já tinham ido todas, ainda mais depois da chuva. Subir no pé eu não
podia, pois o tronco era fino demais. Foi aí que eu me inconformei. Eu podia
pegar essas duas ou três meio amarelinhas ou inventar alguma coisa para pegar
aquela vermelhona lá em cima! A verdade: Eu já tinha até me esquecido do sabor
da pitanga madura, acostumada a sempre comer as mais próximas.
Botei minha mala e cadernos
em cima do banco da praça e saí me enfiando nos galhos com folhas molhadas, que
me estilingavam sujando meu casaco claro ainda cheirando a amaciante. As frutas
lá em cima estavam tão maduras que só de mexer caiam, mas o chão estava imundo
demais para pegá-las. E a saga rumo à pitanga ideal continuava! Até que depois
de muito me esticar, entortar e contorcer, consegui.
Que vermelhinha! E era maior
que as outras!
Bem, chegou o grande
momento: Comê-la!
Foi aí que eu entendi o
poema de Machado de Assis, no qual compara as mulheres às frutas de uma árvore.
As melhores ficam acima, isoladas, achando que o problema é delas por não serem
escolhidas, quando na verdade são melhores que as outras, mais maduras e mais
gostosas. Só precisam que sejam colhidas por alguém que as valorizem e que
tenha coragem de se esforçar, abdicando da facilidade e do gosto insosso das de
baixo. Aquela lá, a que eu peguei, era rara. Que sabor! Valeu a dedicação e
todo o mico de ficar suja e descabelada em meio à avenida principal do bairro.
Eu poderia apresentar essa
minha nova rotina para outras pessoas. Na verdade cheguei a fazer isso, mas foi
diferente. A vivência e o olhar eram meus. O esforço, a vergonha, o medo de
errar...
Valeu a pena!
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