A expressão vocal sempre foi algo de profunda admiração e
curiosidade pra mim.
Além de muito bonita, me transmitia uma sensação de
divindade, algo etéreo e inatingível.
Lembro-me quando um diretor me perguntou o que significava
“cantar” e eu respondi:
“- Um desafio!”
Ele fez uma cara assustadíssima . Me lembro até hoje!!!
Confesso que eu também fiquei impressionada com a resposta e
deixei que o tempo me mostrasse o significado disso. E no decorrer dos
seguintes doze anos ele me mostrou um mundo novo e incrível.
Em princípio era uma descoberta fragmentada e desconexa,
apesar de muito encantadora. As inflamações de garganta nunca mais apareceram e
surgiu uma voz muito saudável e forte. Demorou para que as peças se encaixarem
e formassem uma só. Foi num momento de cansaço que, em uma aula de canto, eu
desabafei:
“Eu tenho uma voz para cada professor de canto que eu fiz aula.
Estou cansada, não quero mais abrir mão do meu conhecimento”
E ele me
respondeu:
“Mas é tudo uma coisa só, não precisa abdicar das coisas que
aprendeu”.
Essa informação foi um alívio imenso! Eu já tinha uma
bagagem e técnica bem interessantes, mas o que eu ainda não havia percebido era
que o que juntaria todas essas peças seria a minha identidade. Foi neste
momento em que comecei a achar a “minha voz”.
A partir daí me senti mais preparada para enfrentar o mundo
e me colocar no mercado.
Grande ilusão.
Ainda tinha algo que me bloqueava e não
me deixava ser plena. E assim aconteceu por alguns anos: Tinham dias em que eu
estava espetacular, vocalmente falando, tinham dias em que eu era péssima.
Motivo? Ninguém sabia dizer. Nem eu.
Tentei de tudo! E como todo grande esforço culmina num
cansaço de desistir, foi inevitável que isso acontecesse. E, claro, muito
sábio!
Neste ponto, conheci uma profissional incrível que
desenvolveu a Técnica de Alexander em um workshop, a queridíssima Joelle. Esta
cantora me trouxe uma visão e um tato vocal com uma liberdade e uma expansão
que eu nunca tinha entrado em contato. Minha voz nunca mais foi a mesma. Nem
meu ritmo de vida, nem meus pensamentos, nem minha filosofia... O contato
comigo mesma foi revelador e tenho que dizer: Eu gostei de mim, viu?
Até então eu não me conhecia e minha visão era muito sobre o
que “o fora” procurava como voz, como perfil de artista. Meu mundo interior era
muito maior que o exterior.
É isto. É exatamente isto!
Ao dar aulas, então, eu juntei todas as minhas peças, todas
as minhas experiências e comecei a usá-las. Não de forma misturada e batida,
mas unificada e discernida; completa, organizada e plena. Foi aí que eu entendi
os motivos da minha vida não ter tido um caminho linear de eventos e fui
reconhecendo o valor de cada um deles:
- Meu trabalho de dança: Me proporcionou presença física, corpo
e tato na música, expansão e envolvimento.
- Meu trabalho de Teatro e Performance: Me trouxe visão
geral (contexto histórico-social), atuação da voz, sensibilidade e proximidade ao
público.
- Meu trabalho como Terapeuta Corporal: Despertou uma
observação e uma sensibilidade de mim e do outro muito grande, o que me traz o conhecimento
do momento do corpo como um todo, esteja alterado ou não no âmbito físico, mental e emocional.
Bom, este é meu caminho vocal. Até agora!
Achei interessante
decorrer este assunto neste meu momento de vida e compartilhar com os amigos,
parceiros e alunos (ou amigos-parceiros-alunos, junto assim mesmo!) e deixar registrado
aqui o meu sentimento de gratidão à todos que, de alguma forma, participaram e
me ajudaram nesse processo.
No mais, um ótimo caminho à todos!
Gratíssima!
Seu relato é muito tocante, Priscila! Ler o seu percurso vocal é extremamente reconfortante - pelo menos para mim, foi! =]
ResponderExcluirQue bom, Lucas!
ResponderExcluirFico realizada com seu comentário, pois era exatamente a minha intenção.
Gratíssima!