São Paulo, 17 de julho de 1994.
Final de Copa: Brasil ganha da Itália.
Enquanto eu me despedia do meu pai, eu via um a um ir embora rapidamente para não perder a grande final.
Esse foi o primeiro dentro tantos outros dias em que eu teria que me acostumar a nadar contra a maré. Não que eu fosse muito adepta às modas em geral. Pelo contrário. Sempre tive um olhar de estranheza e aversão à qualquer amontoado de pessoas padronizadas. Acho que meus valores e meu tempo sempre foram meio diferentes da maioria... Mas este dia em especial fez com que eu não conseguisse mais olhar as coisas de uma forma óbvia (ao menos da mesma forma que as outras pessoas olhavam). Foi uma busca tão rápida e intensa da vida, que somente 15 anos depois consegui criar um espaço para ficar de luto e assumir que sentia sua falta... E assim, sem dramas, passei a fazer homenagens ao meu pai. Por ele, para lembrar e agradecer, e por mim, para me preencher com ele... Passei a fazer coisas que ele fazia pra mim ou comigo. Fiz coisas que aprendi com ele, sem nem saber que um dia me ensinou. Passei por lugares e senti cheiros. Coisas simples, talvez até sem nexo, mas com total sentido pra mim.
Lembrar da sua elegância em dirigir, fez com que eu sempre colocasse os polegares na direção da mesma forma que ele colocava. Aprender a dirigir com 12 anos, 10 km de estrada de terra (com chuva!!!) e 20 km de asfalto de Monte Verde a Camanducaia, só mesmo com um grande professor. Ele era um louco, né? Não muito... Ficava atento com o freio de mão caso eu fizesse alguma coisa errada. Fiz tudo direitinho, o que me despertou uma grande paixão em dirigir até hoje!
Parar na padaria e comprar o chocolate que ele, malandramente, me dava sem permissão. Até hoje, vou à padaria para pegar esse chocolate, sento no banco da praça mais próxima e dou o mesmo sorriso malandro que você dava e penso: "Que figura...".
Lembrar o passo-a-passo e todos os detalhes de como usar uma furadeira... E ainda gostar dessa brincadeira!
Usar esmalte vermelho e pensar: "Ele odiaria essa cor!!!" (Mas olha pai, agora os tempos são outros, tá?).
Subir no telhado da sua casa e ficar olhando o mundo... Ah! E pisar somente na parte de cima da telha, porque a de baixo pode quebrar, né?
Aspirar mais fundo quando os perfumes que ele usava passam por mim...
Sempre verificar a marca dos cadeados...
Abrir a janela da sala de casa e ficar olhando o jardim de noite...
Terminar de jantar, dobrar o guardanapo e colocá-lo em baixo dos talheres juntinhos no canto do prato...
Aproveitando o momento gastronômico: Azeite, azeite, azeite...
A arte de tirar onda das pessoas... E mais: Elas gostarem disso!!! Uma verdadeira ARTE!
Fazer alguma sacanagem e se denunciar com um sorriso (daqueles que apertam os olhos e solta um sorriso tão desengonçado que dá raiva de tão gostoso!).
Engraxar os sapatos com graxa tradicional, escova de dentes e flanelinha... Ainda não achei a escovinha ideal, mas o polimento com a flanela ficou espetacular!!!
Ir ao cinema sozinha...
Bom, são muitas as formas que faço homenagens à ele e com tantas coisinhas gostosas, pretendo continuar fazendo... (As reticências não são por acaso)
Pai: Obrigada por estar ao meu lado nos momentos difíceis e ainda me acolher e se tornar presente de uma forma que eu consiga te sentir: em sonhos, em cheiros, em presença de voz ou mãos...
...
São Paulo, 17 de julho de 2014.
P.S.: A Copa este ano foi no Brasil, ele não ganhou e ainda procuro um sentido pra tudo isso!

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